top of page

Acerca de

Wave

A rapariga de olhos grandes e cabelo preto

Capítulo V

 Esboçou-lhe um sorriso.

    - A sair.

Sentia-se esperançado. Pela primeira vez em muito tempo. Introduziu as pedras de gelo no copo, mexeu-as com convicção para gelar o copo. Aromatizou o copo com a lima. 

    - Olha lá, estás a acariciar o copo? Só me faltava esta.

O gerente não perdoava. Fazia pouco, ralhava muito. 

    - É o que dá. Contrato gajos destes e depois ficam aqui a ver passar as horas. Estou tramado contigo.

Sentia-lhe o bafo a whiskey. Acabava as noites embriagado, sem exceção. 

    - Sai-me da frente, eu preparo o gin.

Desequilibrou-se e bateu com o queixo no balcão. Endireitou-se.

    - A menina vai tomar?

    - Já estou a ser atendida. Prefiro continuar a ser atendida pelo seu colega.

    - Colega? Este fedelho?

Lembrou-se do grande D. Na escola tinham-lhe chamado fedelho. O grande D. não foi de modas e arremessou um soco num miúdo. Custou-lhe duas semanas de suspensão. 

    - Sai para lá, vou continuar a atender, se não te importas. 

    - Não me parece nada, fedelho. 

Deu por si a dar um soco na cara do gerente. Um outro colega tentou pará-lo. Parou ao quarto soco. Saiu pela porta de trás do bar, entrou na copa, abriu o cacifo, tirou a carteira e saiu.

Deu a volta ao bar e encostou-se à parede. Não se reconhecia. Sentia-se livre. 

    - Isso é que foi.

Ouviu-a mesmo a seu lado. 

    - Não foi lá muito bonito. 

    - Foi o que foi. Trabalhas aqui há muito tempo?

    - Trabalhava, queres tu dizer. Mas estava de saída, antes disto.

 Ficaram calados. Será que ela o reconhecia? Claro que não. Estava a ser idealista. 

   - Pensava que nunca mais te via. 

Reconheceu. Sentiu-se a vacilar.

   - Não tinha como te encontrar.

   - Tentaste pelo menos? Sorria. Baton vermelho, bem carregado. Ficas?

Deu por si a ir.

Vaguearam mudos pela rua estreita, passaram pelo carro dela. 

   - É o meu carro.

Destrancou a porta e sentou-se no banco.   

   - Tenho de ir. Amanhã, começo uma vida nova, espero eu.

   - Boa, podemos combinar alguma coisa, não sei.

   - Sim, se passares por Paris, tomamos um café.

Estremeceu.

   - Paris, o que farás lá?

   - Bem, tem uma luz fantástica, não como a de Lisboa mas pagam bem.

Estava perplexo, sem entender.

   - Ah, pois, desculpa, sou fotógrafa. Faço trabalhos quando há, exponho algumas coisas, não interessa muito. 

   - Fotografas paisagens, prédios, pessoas?

  - Rostos, sim. Olhares bem dirigidos à câmera são muito aclamados. Prefiro os olhares distantes, perdidos, com alguma melancolia. Seduzem-me os olhares perturbados, com dúvida, sabes?

Acenou que sim.

   - E encontras bons rostos?

   - Todos os rostos são bons desde que expressem emoções, disse ríspida de rajada.

Sentiu uma consternação na sua voz. Que rosto terá fotografado que a deixou assim? Podia ser isso ou outra coisa qualquer. Conhecia-a nem há uma hora. 

   - Quando regressas?

  - A ver. Até preferia que não gostassem mas pagam mesmo bem. Fotografar modelos esqueléticas, com rostos perfeitos e sem expressão alguma. Porreiro, hem?

Riu-se. 

   - Tenho de ir. Adeus, rapaz dos socos. 

   - Adeus, rapariga de olhos grandes e cabelo preto.

Afastou-se do carro. Começou a caminhar na direção contrária. 

   - Olha!

Chamou ela.

   - Sim?

Sentiu um disparo. Câmera fotográfica. Flash de luz. 

Ela acenou, pousou a câmera no banco e arrancou a toda a velocidade. 

    

   

    

bottom of page