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Wave

A rapariga de olhos grandes e cabelo preto

Capítulo VIII

    - Amor, trazes-me o soutien branco que está na cómoda? 

​Não suportava ser chamado de Amor. 

    - Sim. Toma.

    - Obrigada, Amor.

Sentiu-se enjoado com o cheiro de jasmin que emanava da casa de banho.

    - Vou-me deitar.

    - Mas hoje dá o último episódio. Combinámos ver.

    - Dói-me a cabeça. Vê tu. Eu vejo depois. 

    - Está bem, Amor. Queres um chá?

​Não gostava de chá. Começou a tomar porque fazia bem. Pelo menos era o que a Ana dizia. Verde porque melhorava a função cerebral. Hortelã porque facilitava a digestão. Alfazema porque diminuía a ansiedade. Era agora um letrado em chás. 

    - Não. Vou mesmo dormir. Até amanhã. 

Deitou-se de barriga para cima e fechou os olhos. 

Sentiu uma mão a puxar o lençol e a dobrar com cuidado a manta grossa, ajeitando-a em torno do seu corpo. 

    - Boa noite, Amor. 

Deu-lhe um beijo na testa. E saiu. 

Atirou com o lençol para o fundo da cama. Com força. Com desdém. Irritado. Acima de tudo consigo mesmo. 

    - Grande D, estou metido numa grande merda.  

    - Pois. 

    - Mas que Pois é esse? 

    - Força de expressão.

Silêncio. Sentia que devia ser brutalmente verdadeiro com o amigo. 

    - Eh pá não é força de expressão nenhuma. A Ana é uma ótima pessoa. Trata-te bem. Dá-te mimos. Etc., etc., etc. Mas isso também a tua tia faz. E que eu saiba nunca te passou pela cabeça namorares com a tua tia.

    - Não aguento mais. 

    - Separa-te. Não hás-de ser o primeiro. 

    - Não consigo. A Ana é mesmo um amor. Não sei como irá reagir. 

    - Gostas dela?

    - O problema é esse. Gosto. Mas não te sei explicar. 

    - Não gostas dela ou não gostas de ti?

    - F****, não estás a ajudar, pá. Ela faz tudo bem, com cuidado e dedicação. Trata da casa. O Lorde adora-a. Aninha--se ao pé dela e não sai dali. A tia diz que é uma menina exemplar. Boa para casar. Ela é um anjo, pá. E eu estou aqui com merdas. 

    - Não sei o que te diga. 

O grande D. era pragmático. Um mais um eram dois. Andava também ele irritado. Por ver o amigo a definhar. Era uma sombra de si mesmo. Anuía a tudo. Tinha deixado de ter voz. 

Talvez se tivesse falado antes. Não saberia. E todos os dias se sentia tentado a dizer. O que é certo é que não dizia. 

    - Tenho que terminar com isto. Não me sinto mais eu. 

    - Falamos amanhã, então. Com mais calma.

    - Estás lá às sete? 

    - Sim.

    - A Ana só chega perto das oito. Temos tempo para falar. 

    - Até amanhã. 

Natal.

A tia tinha-se esmerado este ano. Árvore de natal de dois metros, magnificamente decorada com acessórios pintados à mão vindos de Florença. Por toda a casa, velas brancas iluminavam os espaços. A mesa da consoada irradiava luz dos pratos dourados. Aqui e acolá, apontamentos de azevinho natural.  

    - Querido, entra. A tia vai só supervisionar a ceia e já vem.

    - Vou para a sala da lareira, tia. 

Refastelou-se no cadeirão e fitou o fogo intenso. Assim ficou. O fogo queimava tudo em redor. Ele sentia-se assim. 

O grande D. entrou com dois copos de whiskey. 

    - Já, grande D.? Estás forte. 

    - Bebe e cala-te. 

Ficaram a apreciar a bebida em silêncio. O grande D. disse de rajada.

    - Tenho que te contar uma coisa. 

    - Diz.

    - É melhor endireitares-te.

    - Estás sério, pá. O que se passa?

O grande D. bebeu um longo trago, acabando o whiskey, pousou o copo e atirou.

    - Encontrei-a. 

 

Estava perplexo. Bebeu o whiskey de um gole só.    

    - Não estás a falar de quem eu penso que estás a falar. 

    - Estou.

    - Mas como é que conseguiste?

    - Não vais querer saber como lá cheguei. Acredita. 

    - Quero pois. 

    - Só te digo uma coisa. Ela não pagou com dinheiro no bar, pois não?

    - Não sei. Saí a correr de lá.

    - Pois digo-te que não. 

    - Continua em Paris?

    - Sim. Veio cá três vezes e uma vez a Milão. Mas reside lá. Em Montmartre. 

    - Mas eu não te pedi para a encontrares. 

O grande D. baixou os olhos. Começou a transpirar.

    - Vou buscar mais um whiskey.

    - Traz um para mim.

A porta abriu-se e a tia entrou. Sentou-se num cadeirão e começou a contar a temporada em Londres pela enésima vez. Com todos os detalhes. Juntou-se-lhes a D. Maria, muito atenta. Gostava de ouvir as histórias de Londres, davam-lhe o mundo que ela nunca conhecera.

O grande D. voltou com as bebidas e sentou-se. Olhava o amigo nos olhos, via o tempo a passar, cada vez mais perto das oito. Estava inquieto. Sentia-se mal. Com culpa. Carregado de culpa. Não conseguindo mais esconder a inquietação, disparou.

    - Preciso de falar contigo. 

A tia olhou-o visivelmente consternada com a interrupção. 

    - Oh querido, isso são lá modos!

    - Desculpe mas preciso de falar com ele. 

    - Hoje é noite de natal. Falam depois. Pode esperar. 

    - Acha que a felicidade do seu sobrinho pode esperar?

A tia olhou-o bem fundo nos olhos. Vislumbrou a sua inquietação, sentindo-se agora também ela inquieta.

    - Vai lá querido falar com o teu amigo. 

Levantaram-se e dirigiram-se à varanda. Estava um frio de rachar. Eles sem casaco. Beberam de um trago o whiskey. 

    - E agora o que faço com essa informação?

O grande D. tirou do bolso um envelope.

    - Toma.  

Abriu-o e viu um bilhete de avião para Paris e reserva de hotel. 

    - A tua prenda de natal, meu amigo.

 

    - Queridos, a Ana chegou.

Guardou o envelope no bolso das calças e entraram na sala.

Uma empregada cercou-se de Ana, perguntando gentilmente.

    - O que toma, menina?

    - Um chá, por favor. De jasmim.

 

 

 

  

 

    

 

  

 

    

   

    

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