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Acerca de

Wave

A rapariga de olhos grandes e cabelo preto

Capítulo X

    - Estou?

    - Olá, querido. É a tia. 

    - Olá, tia. ​Está tudo bem?

    - Sim. Convido-te a vires cá a casa. Às 17h. Tomamos um chá com scones e doce de cerejas pretas, os que tu gostas.

    - Café, tia. Café. Pode ser?

Não suportava chá. Só a palavra o enjoava. 

    - Claro, querido. Cá te espero. Sem a Ana. 

    - Aí estarei.

Desligou o telefone. Ana tinha saído. Ouvira e calara. Levantara-se e saíra dizendo apenas que regressaria ao jantar.

Não tinha dito a verdade. A completa. A que vale.

Omitira. Boa parte. Grande parte, na realidade.

Olhara-a nos olhos e fora incapaz de lhe dizer "Estou perdido. De amores. Por uma pessoa que não conheço." Da sua boca saíram apenas clichés. Dos mais batidos. Dos mais repugnantes. "Não estou bem. O problema sou eu. Esta viagem veio mesmo a calhar."

Tudo soara a falso. As palavras. O tom. A expressão.

Ana ouvira. Sem qualquer expressão. E como os grandes guerreiros saiu de cabeça erguida em batalha perdida.

 

    - Olá, tia. Que me quer? Quando acena com os scones, vem água no bico.

Sorriu para a tia. Por dentro, adivinhava o que iria ouvir.

    - Querido, vou ser direta. 

    - Como sempre, tia. Como sempre.

​Não era bem assim. A tia falava por metáforas. 

   - A vida coloca-nos à prova todos os dias. A todos. Sem exceção. A forma como encaramos esses desafios define-nos. Dito isto, quando encontramos o Amor, diz-me a experiência, não lhe devemos voltar as costas. Lamentemo-nos depois de lutarmos com todas as forças, com todo o sangue que nos corre nas veias. Até lá, persistimos. Pior que não ter Amor é não ter lutado por ele.

Olhou-o nos olhos e sorriu. Afagou-lhe o rosto.  

    - Vamos lanchar, querido?

Assentiu. Levantaram-se, dirigiram-se à varanda. Estava frio. E um sol radioso. 

Sentaram-se à mesa. Em silêncio. 

De seguida, deliciou-se com os scones quentes. Manteiga ainda a derreter. E cerejas pretas. Como gostava de cerejas pretas.

 

Saiu de casa da tia passava das 19h. Deambulou pela rua. Absorto nos seus pensamentos. 

Pior que não ter Amor é não ter lutado por ele.

 

    

 

 

 

  

 

    

 

  

 

    

   

    

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