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Wave

A rapariga de olhos grandes e cabelo preto

Capítulo VII

Chegou a casa e deitou-se. Estava sem forças. Não tinha dormido. Nem comido.

A cabeça não parava. Os pensamentos entravam em ritmo acelerado. Sem nexo. Avassaladores.

Deu por si a questionar o sentido da vida.

Já não sabia o que o movia. Se é que algo alguma vez o moveu.

Vivera a maior parte da vida em piloto automático, sempre a saltitar de um lado para o outro, sem nunca refletir. Talvez nunca tivesse parado porque a quietude era dada à dor.

Era mestre em fugir.

Em empurrar com a barriga para a frente.

Em desenrascar-se. Não fosse português.

Em sorrir perante os medos fintando--os mas não os enfrentando verdadeiramente.

 

Olhava para o teto e perguntava-se: Quem raio és tu?

O Lorde lambeu-lhe uma mão. Amigo fiel, de longa data. Tinha-o encontrado na rua ferido e mal nutrido.  

    - Lorde, quem sou eu?

O cão deitou-se e fechou os olhos. Também ele sem resposta. 

Começou a trabalhar no stand. Foi muito bem recebido. Com um bolo de laranja caseiro feito pela Ana.

    - É a tradição. Sente-te em casa. 

    - Obrigado, Ana. 

 

Ana tinha os cabelos claros, pele branca de neve, olhos azuis que se escondiam atrás de uns óculos desproporcionados para o seu tamanho. Media 1,50m, vestia umas calças beges, camisa branca fluida. Nos pés também eles pequenos, umas sabrinas pretas embutidas de ramos de flor de cerejeira.

 

Observou-a. Cortava o bolo meticulosamente, emprantando com cuidado as fatias, oferecendo-as, com as duas mãos por baixo, aos elementos da equipa, fazendo uma ligeira vénia. 

Lembrou-se de imediato de Quioto. De mochila às costas, aterrara em Tóquio. Percorrera o Japão de lés a lés durante um mês. 

 

Ana falava pouco. Gesticulava suavemente com as mãos finas. Sorria com frequência. Irradiava leveza.

    - Vou-te explicar os processos. Alguma dúvida, vai-me dizendo. 

Novo sorriso. Doce. Enquanto limpava a boca com o guardanapo. O bolo era divinal. Húmido com raspas ligeiras da casca da laranja. 

 

Chegou a casa, ligou a televisão e recostou-se. Zapping e cerveja na mão. Prazeres mundanos. Talvez o sentido da vida fosse esse. Saborear cada momento em profundo silêncio da Alma.

'Tudo vale a pena quando a Alma não é pequena.' pensou. Que tamanho teria a sua alma? Quanto de sonhos e carácter caberia nos famosos 21 gramas?

Adormeceu por fim.

E sonhou. Com a leveza do Ser. Nuns olhos grandes e lábios vermelhos carregados de paixão.

  

 

    

 

  

 

    

   

    

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